Qualidade, certificação e metrologia são apontadas como fatores centrais para competitividade das micro e pequenas empresas, diz superintendente do IPEM-SP
Qualidade, certificação e metrologia são apontadas como fatores centrais para competitividade das micro e pequenas empresas, diz superintendente do IPEM-SP
A discussão sobre qualidade e sua relação com o desenvolvimento econômico e a competitividade das empresas tem ganhado espaço em diferentes setores da sociedade. O tema envolve produção, consumo, confiança do consumidor, acesso a mercados e sustentabilidade dos negócios, especialmente no contexto das micro e pequenas empresas. Para tratar desse assunto, o programa A Hora e a Vez da Pequena Empresa convidou Marcos Guerson, superintendente do Instituto de Pesos e Medidas do Estado de São Paulo (IPEM-SP), para apresentar reflexões sobre a chamada infraestrutura da qualidade e seus impactos no ambiente produtivo.
Durante a entrevista, Marcos Guerson destacou que países considerados desenvolvidos apresentam em comum a presença de mecanismos de controle e garantia da qualidade dos produtos e serviços oferecidos à população. Segundo ele, a existência de padrões técnicos e sistemas de fiscalização reduz a circulação de produtos inseguros e contribui para a proteção do consumidor. Esse contexto favorece a formação de um ciclo em que qualidade, capacitação profissional, produtividade e renda se conectam ao desenvolvimento econômico.
O superintendente explicou que, no cenário atual, a qualidade está diretamente associada à confiança. Com o avanço da tecnologia e o acesso ampliado à informação, o comportamento do consumidor mudou. A consulta a avaliações e relatos sobre produtos ocorre de forma imediata, o que amplia o impacto de falhas e problemas na reputação das empresas. Nesse contexto, a existência de processos estruturados e mecanismos de verificação passou a ser parte da estratégia de sobrevivência dos negócios, com efeito ainda mais sensível para micro e pequenas empresas, que dispõem de menor margem para erros.
Ao abordar o conceito de infraestrutura da qualidade, Guerson apresentou seus principais componentes: metrologia, normas técnicas e certificação. De acordo com ele, esses três elementos formam a base que permite às empresas comprovar que seus produtos atendem a requisitos mínimos estabelecidos e reconhecidos no mercado. A certificação, nesse sentido, funciona como instrumento de comunicação com o consumidor e também como ferramenta de acesso a mercados nacionais e internacionais, ao demonstrar que a empresa segue os mesmos parâmetros exigidos de organizações de maior porte.
Foi apresentado exemplos práticos para ilustrar os efeitos da certificação no desempenho de pequenas empresas. Um dos casos citados envolveu uma indústria de panelas de pressão localizada em Divinópolis, em Minas Gerais. A empresa, inicialmente resistente ao processo de certificação devido aos custos envolvidos, passou a adotá-lo após enfrentar dificuldades de comercialização. Durante os testes exigidos, foi identificado que a matéria-prima adquirida apresentava espessura inferior à contratada, o que gerava prejuízo financeiro e comprometia a segurança do produto. A partir dessa constatação, a empresa substituiu o fornecedor, reduziu custos e ajustou o padrão do produto. Outro exemplo mencionado envolveu uma empresa de Manaus que, após a certificação, passou a posicionar seu produto dentro dos requisitos mínimos exigidos para competir no mercado em condições equivalentes às marcas de maior alcance.
Marcos Guerson também comentou sobre o conteúdo de seu livro voltado ao tema da infraestrutura da qualidade, no qual apresenta conceitos relacionados à metrologia, normalização, certificação, acreditação e vigilância de mercado. Segundo ele, o material foi desenvolvido a partir de sua experiência no Inmetro e no IPEM-SP, com o objetivo de traduzir esses temas para uma linguagem acessível a empresários e profissionais do setor produtivo. O conteúdo do livro é acompanhado de um curso que contextualiza esses conceitos em temas como indústria 4.0, transformação digital e sustentabilidade.
Ao tratar do cenário atual, o superintendente destacou que a infraestrutura da qualidade foi estruturada, originalmente, para atender a um modelo industrial baseado no controle de processos. No entanto, o avanço da economia digital, da inteligência artificial e das novas tecnologias exige adaptação. De acordo com sua análise, o foco deixa de ser apenas o controle e passa a incorporar a inovação como elemento central. Esse movimento abre espaço para que micro e pequenas empresas, incluindo startups, encontrem oportunidades de posicionamento no mercado a partir de ideias e soluções inovadoras.
Ele observou que muitas dessas empresas buscam orientação sobre como certificar produtos e serviços baseados em novos modelos de negócio e tecnologias. Nesse contexto, a aproximação entre o ecossistema de inovação e a infraestrutura da qualidade torna-se um fator relevante para gerar segurança jurídica, credibilidade e valor econômico. O fortalecimento desse diálogo contribui para ampliar o entendimento das empresas sobre os instrumentos disponíveis e, ao mesmo tempo, para atualizar o próprio sistema de qualidade frente às transformações em curso.
Ao final da entrevista, o convidado reforçou que a qualidade deve ser compreendida como elemento estruturante de qualquer estratégia empresarial. A adoção de práticas alinhadas a padrões técnicos e a busca por processos confiáveis impactam diretamente a relação com o consumidor e a sustentabilidade dos negócios ao longo do tempo. A consolidação dessa cultura está associada à competitividade das empresas e ao próprio projeto de desenvolvimento econômico do país.
Atenção: multas por atraso nas declarações do Simples Nacional passam a ser automáticas em 2026
A Receita Federal tem orientando e alertando empresários das micro e pequenas empresas, especialmente os optantes do Simples Nacional, sobre alterações previstas para 2026 quanto à aplicação de multa relacionada ao atraso na entrega das declarações mensais e da declaração anual referentes ao faturamento. A declaração mensal sobre o faturamento deve ser entregue até o dia 20 do mês subsequente ao da ocorrência do fato gerador. A declaração anual deve ser apresentada até o dia 31 de março do ano seguinte ao exercício do faturamento, o que estabelece como prazo final o dia 31 de março de 2026 para as informações referentes ao ano-base anterior.
De acordo com a análise de Marcos Tavares, advogado, em 2026 as multas passarão a ser aplicadas de forma automática após o atraso na entrega das declarações. Em 2025, existia um período de tolerância de até quatro meses, que deixará de ser adotado. Com o descumprimento do prazo, a empresa passa a constar como irregular e fica sujeita à penalidade.
O advogado aponta que as empresas devem manter as declarações em dia e acompanhar eventuais pendências, divergências ou atrasos por meio do e-CAC da Receita Federal e do portal do Simples Nacional. Esse acompanhamento permite a verificação da situação fiscal e o controle das obrigações acessórias.
A regularidade das declarações contribui para evitar contratempos, autuações e o risco de desenquadramento do Simples Nacional, além da possibilidade de cobrança de valores retroativos.
Desemprego fecha 2025 em 5,4%, mas queda na atividade e redução na busca por emprego acendem alerta, aponta análise
O ano de 2025 foi encerrado com taxa de desemprego em torno de 5,4% no Brasil, segundo dados disponíveis. A redução do desemprego e o aumento do salário real indicam, em princípio, um cenário de melhora nos indicadores do mercado de trabalho. No entanto, informações relacionadas aos setores industrial, comercial e de serviços apontam queda no nível de atividade na indústria e no comércio e estabilização no setor de serviços.
De acordo com Otto Nogami, economista, essa divergência entre os indicadores do mercado de trabalho e os dados setoriais está relacionada à forma como o desemprego é medido. A metodologia considera como desempregado o indivíduo que não está trabalhando e que declarou ter procurado emprego nos últimos 30 dias. Quando a pessoa não busca uma vaga nesse período, ela deixa de ser contabilizada como desempregada e passa a ser considerada fora da força de trabalho.
Há indícios de redução no número de pessoas interessadas em buscar emprego formal, com aumento da opção por atividades autônomas ou temporárias. Esse movimento afeta a composição das estatísticas e interfere na interpretação dos dados sobre desemprego.
Otto aponta que a diminuição da procura por emprego pode gerar impactos sobre o setor produtivo, especialmente em um contexto de crescimento econômico, ainda que moderado. A menor disponibilidade de mão de obra tende a criar dificuldades para atender à demanda por trabalhadores, com reflexos sobre produtividade e competitividade. Para o economista, esse é um fator que deve ser considerado na análise dos dados do mercado de trabalho.
Ano eleitoral deve ampliar volatilidade dos mercados, com atenção à trajetória de juros, inflação e cenário fiscal
O ano de 2026 ocorre em contexto eleitoral, o que tende a influenciar o comportamento dos mercados e o ambiente econômico. Há expectativa de maior oscilação na bolsa de valores ao longo do período, acompanhando o ritmo da campanha e dos debates públicos. Esse cenário dificulta previsões e planejamentos de médio e longo prazo.
De acordo com a análise de Hudson Bessa, professor da FGV, a inflação apresenta trajetória de desaceleração gradual em direção à meta, enquanto a taxa de juros tende a recuar de forma progressiva. Esses movimentos afetam o ambiente de negócios e as condições de crédito ao longo do ano.
O contexto fiscal deve ganhar relevância em razão do aumento de gastos públicos característico de anos eleitorais. Esse movimento tende a gerar necessidade de ajustes posteriores, com impacto mais concentrado a partir de 2027.
Hudson Bessa também observa que o desempenho recente do setor externo mostrou capacidade de adaptação diante das restrições comerciais enfrentadas anteriormente. Parte das exportações foi redirecionada para outros mercados, o que contribuiu para acomodar perdas e influenciar o comportamento do câmbio.
Na avaliação do professor, o cenário econômico combina fatores como variação nos mercados financeiros, trajetória de inflação e juros, resultado do balanço de pagamentos e atenção à política fiscal, elementos que devem ser acompanhados ao longo do período analisado.