O homem dos sapatos apertados
Diz o conto — desses que parecem pequenos, mas carregam o tamanho e a realidade do mundo — que Samuel era querido como poucos na fábrica em que trabalhava havia mais de duas décadas.
Operava um torno mecânico com maestria e precisão quase artística. Era o professor da inquestionável competência!
No chão de fábrica, onde o barulho costuma engolir as gentilezas, ele as fazia aparecer: cumprimentava um por um – olhando nos olhos e apertando as mãos, chamava cada colega pelo nome, oferecendo, sempre, a bem vinda ajuda sem alarde e com habitual presteza e disposição.
Supervisores e diretores também o conheciam — não por crachá, mas por reputação e respeito adquiridos: do homem correto, constante, útil, confiável.
Samuel não "cresceu" na carreira como dizem crescer muitos ambiciosos. A vida não lhe deixou folga e restringiu-lhe as oportunidades: sendo o filho mais velho, trabalhou, desde tão cedo para sustentar a numerosa família. E, ainda assim, carregava um sorriso limpo, desses que não pedem desculpas por existir, ao contrário, prevalecem.
Havia, contudo, um detalhe, um fato que todo mundo notava: Samuel mancava levemente. Não era um mancar dramático, era um desvio discreto — uma torção na passada, um cuidado ao apoiar, no andar, ora um pé, ora outro. Os mais antigos comentavam: "Ele é assim desde que entrou". Mas ninguém sabia a razão.
Na semana em que a fábrica preparava uma mais que justa e digna comemoração pelos vinte anos de casa do "Seu Samuca" - como o chamavam, os colegas se aproximaram durante o intervalo e com absoluto respeito, perguntaram:
— Samuca: por que você anda assim?
Samuel respirou fundo, como quem decide não esconder uma vergonha antiga.
— Parece estranho... não me julguem. Eu só tenho um par de sapatos. Me são suficientes e cuido bem deles, vocês sabem. Só que... eles são um ou dois números menores do que meus pés. Eu nem sei se são 38 ou 39... mas meus pés são 40. No fim do dia, dói. Dói sempre. Daí...
Ele sorriu — aquele sorriso que não acusa ninguém — e, antes que a conversa virasse pena, levantou, agradeceu o interesse e voltou ao trabalho.
Os colegas ficaram parados, indignados por dentro. Não com o amigo Samuel — com o absurdo silencioso. E ali, entre máquinas e graxa, decidiram sem discurso: fariam uma vaquinha. Na sexta-feira da homenagem, Samuel receberia um sapato digno: um par número 40, bonito, novo, certo.
Chegado o dia, juntaram-se colegas, chefias, diretoria. Houve abraço, fala curta, aplauso longo. Então, o presente: a caixa nova, laço simples, emoção grande. Samuel, o querido e gentil líder incontroverso, abriu como quem não quer acreditar. Calçou. Levantou. Deu alguns passos. Parou. Olhou o chão como se o chão tivesse mudado. Juntou as mãos em agradecimento.
— É... é diferente — disse baixinho.
E era mesmo. Durante dias, Samuel andou firme. O mancar desapareceu. O "Seu Samuca" parecia até mais alto: não de vaidade, de alívio.
Até que, por volta da segunda semana após a homenagem, aconteceu o impensável: Samuel chegou à fábrica... com os sapatos antigos, mancando! Um grupo se formou em volta dele, quase em coro:
— Samuel! O que houve? Onde estão os sapatos novos?
Samuel baixou os olhos por um instante, como quem sente vergonha do próprio segredo. E então disse, com voz mansa, mas pesada:
— Amigos: eu agradeço como nunca. Aquele sapato número 40 foi um presente que eu não merecia receber sozinho. Mas preciso confessar uma coisa... Nesta vida, eu tenho poucos prazeres. Em casa, há brigas e discussões imotivadas. Na rua, desrespeito. No caminho, preocupação. Na TV, fatos desumanos e injustificados. Eu vejo e sinto essa dureza o tempo todo... E percebi que o meu único prazer, o único mesmo, era chegar em casa... e tirar os sapatos apertados.
Fez uma pausa curta, como quem tenta explicar o inexplicável.
— Quando eu chego em casa e tiro esses sapatos que me ferem, eu sinto uma alegria... uma paz... como se, por alguns minutos, eu tivesse vencido o dia e tudo que vi. Com o sapato novo, o dia ficou melhor... mas eu perdi o meu "alívio final". E eu... eu me acostumei a viver esperando o fim da dor, porque é a única felicidade que me sobra.
Os colegas, atônitos, ficaram em silêncio. Porque entenderam, de repente, que há dores que viram rotina. E rotinas que viram identidade.
E que às vezes o problema não é faltar o sapato 40 — é o mundo em volta obrigar o homem a precisar da dor para sentir que ainda tem alguma coisa sob controle.
Samuel é a MPE/MEI no Brasil?!
Vejamos:
- Elas trabalham há anos (às vezes décadas), sustentam famílias, bairros, fornecedores;
- São respeitadas pelo cliente, admiradas pelos parceiros, "conhecidas" por todo mundo;
- Há forte trabalho por elas desenvolvido e, se mancam, não e nunca por incompetência, e sim por custo fixo, burocracia desmedida, insegurança jurídica em doses diárias, inflação de custos crescente, juros astronômicos, obrigações acessórias e imprevisibilidade (em tempo: alguém por aí está pensando hoje no que será amanhã – pós reforma tributária – para a sobrevivência das MPE/MEI?).
- O sapato apertado das MPE/MEI pode estar representado, no dia a dia:
- Costumeira burocracia e obrigações acessórias (muitas guias, declarações, prazos, retificações, eSocial, PGDAS);
- Custo do dinheiro (juros altos: capital de giro vira punição);
- Risco e insegurança (mudança de regra, interpretação fiscal oscilante, autuações por detalhe);
- O custo de conformidade (sistema emissor de notas fiscais, adequação tecnológica, cara);
- Concorrência assimétrica (grandes com time fiscal, pequenas com a coragem).
O "sapato 40" é quando o mercado tenta ajudar:
- cliente fiel;
- fornecedor que dá prazo;
- parceiro que indica;
- tecnologia que melhora processo;
- uma venda grande;
- um contrato novo;
- uma oportunidade de crescer.
Porém, muitas vezes, quando a empresa "calça o 40" (cresce, fatura mais, estrutura melhor), o sistema – via inércia ou inoperância estatal - puxa de volta para o apertado:estoura o limite anual (MEIs: R$81.000,00/ano; MPE: R$4.800.000,00/ano) - absurdamente congelado há quase uma década;
- entra em faixa tributária mais cara;
- muda de regime, e, em muitas ocasiões, forçadamente;
- multiplicam-se obrigações e crescem os riscos.
A empresa, então, volta a "mancar", porque o ambiente faz o crescimento doer e doer muito. No mundo real, para as MPE/MEI, acontece algo parecido:
- a empresa se acostuma a viver em modo sobrevivência;
- aprende a "se virar" em ambiente hostil;
- e, quando aparece um sapato bom (crescimento), o próprio sistema cria um novo aperto: mais custo, mais risco, mais burocracia, menos caixa.
Ou seja: o problema não é só "dar um sapato 40". Muito mais que isso, é consertar o caminho, para que caminhar não seja uma punição. O drama é perceber um Estado em que, mesmo quando o sapato certo chega, o chão segue torto: desrespeito, burocracia, custo financeiro e incertezas que mudam o passo e empurram o pequeno de volta ao desconforto e fazem da sobrevivência, uma dura rotina, um hábito. Infelizmente, para o MEI e a MPE, no findar de um dia inteiro, e no próximo, e no seguinte, só se quer, se deseja, é aliviar a dor.
*Vitor Stankevicius - Graduação em Administração, Graduação em Ciências Contábeis, Pós-graduação Lato Sensu em Administração Financeira, Mestre Stricto Sensu em Governança Corporativa, autor de capítulo de livros: Compliance Estratégico, Volume 1, Editora Dialética, 2020 e Governança Corporativa – Estudos e Prática, Editora Pimenta Cultural, 2022, Atuou como Professor, Auditor e perito contador registrado CRC e Apejesp,
Graduando em Direito pela Escola Paulista de Direito (EPD), Auditor e Perito Contábil. E-mail: nz.audita@gmail.com.
**João Mellão Neto (justa e necessária homenagem) - Tive a grata satisfação de ler, no ano de 1.996, o artigo "O Homem dos Sapatos Apertados", de João Mellão Neto (in memorian), publicado no jornal O Estado de S. Paulo (Estadão) neste mesmo ano. Rendo aqui minha respeitosa homenagem ao autor (e familiares) que em sua reconhecida capacidade, demonstrou, à época, em oportuna crítica, a relação do cidadão com o Estado, onde pequenos alívios são valorizados em vez de questionar a origem do desconforto.